Como a televisão mina sua capacidade de ouvir um sermão

Em seu livro, Between Two Worlds: The Art of Preaching in the Twentieth Century (“Entre Dois Mundos: A Arte de Pregar no Século Vinte”), John Stott faz alguns comentários sobre a televisão.

Ele cita alguns aspectos positivos da televisão como, por exemplo, o poder de compartilhar eventos e experiências entre pessoas, a possibilidade de viajar a lugares que de outra forma você não teria condições de visitar pessoalmente, a possibilidade de conhecer algumas maravilhas da natureza, assistir filmes, eventos culturais e esportivos, saber o que está acontecendo no mundo através dos noticiários, entre outras coisas. Tudo isso tem o seu lado positivo.

Mas a televisão pode também ter um efeito negativo sobre as pessoas. Como o assunto principal do livro é a pregação, John Stott enfatiza principalmente os efeitos da televisão sobre a habilidade do cristão de ouvir sermões. A televisão torna mais difícil a tarefa de ouvir atentamente e responsivamente a um sermão, e consequentemente torna mais difícil a tarefa do pregador de manter a atenção da congregação. O livro lista cinco efeitos que a televisão pode estar tendo sobre você e como ela mina sua capacidade de ouvir um sermão:

  1. A televisão pode estar te tornando fisicamente preguiçoso.

A televisão oferece entretenimento através de um simples apertar de botão. Então por que não relaxar na poltrona e praticar sua “devoção” na frente da telinha? Para que se incomodar se deslocando até a igreja? Pessoas condicionadas a assistir muita televisão são mais relutantes em sair de casa, e mais sensíveis a intromissões, se comparadas a outras pessoas menos condicionadas. A televisão inibe a participação pessoal e a comunhão entre as pessoas, a adoração sacramental e congregacional, sem falar de um testemunho e serviço ativos.

  1. A televisão pode estar te tornando intelectualmente apático.

É claro que existem exceções. Alguns programas são projetados para provocar nossas opiniões e o pensamento. Mas a verdade é que a maioria das pessoas liga a TV precisamente para serem entretidas, principalmente depois de um longo dia de trabalho, e não para participarem ativamente de alguma coisa, muito menos para pensar. Desta forma essa doença conhecida como “espectatoritis” continua se espalhando. As pessoas não conseguem mais ouvir sem olhar. A TV as oferece mais imagens do que argumentos. Cristãos não deveriam incentivar nada que enfraqueça as faculdades críticas das pessoas.

  1. A televisão pode estar te tornando emocionalmente insensível.

Em um sentido o oposto é verdade. A TV tem o efeito de trazer visualmente para as nossas casas e para as nossas consciências cenas que de outra forma nunca testemunharíamos. Os horrores da guerra, a privação da fome e da pobreza, a devastação de terremotos, enchentes e furacões, e a terrível condição de refugiados. Essas coisas nos são impostas (e deveriam mesmo) como nunca antes. Não deveríamos fechar nossos olhos para essas coisas. Mesmo assim o fazemos. E é compreensível. Pois há um limite de dor e sofrimento que nossas emoções podem suportar. Depois de um tempo quando o fardo está pesado demais para ser carregado, trocamos de canal ou desligamos a televisão, ou continuamos assistindo mas sem sentimentos, desligamos nossas emoções internamente. Acabamos nos tornando bons em “auto-defesa emocional”. Quando chegamos nesse ponto, apelos se tornam contraproducentes; não há sentimentos que nos restem para que respondamos; às vezes me questiono se estamos formando uma nova geração de pessoas endurecidas para o Evangelho, porque elas tem sido sujeitas não apenas a versões distorcidas do Evangelho, mas à imagens de TV que acabam por deteriorar para sempre seus mecanismos de reação emocional.

  1. A televisão pode estar te tornando psicologicamente confuso.

A televisão pertence ao mundo do artificial. A maioria dos programas que assistimos não são filmados na vida real, mas em estúdio. Mas até mesmo programas filmados fora do estúdio carecem de uma certa medida de autenticidade, porque depois da filmagem eles ainda são bastante editados (por exemplo, reportagens e documentários), e mesmo se o programa for ao vivo, ainda assim estamos participando por intermediação, como uma experiência de segunda mão.

Foi esse elemento de irrealidade na televisão que Malcolm Muggeridge enfatizou nas suas aulas sobre Cristianismo Contemporâneo em 1976, intituladas Cristo e a Mídia. Ele contrastou a fantasia da mídia com a realidade de Cristo. Malcolm expressou seu desejo pessoal de preferir a realidade de Cristo e de persuadir outros a se agarrarem a Cristo, como os marinheiros nos tempos antigos se agarravam ao mastro do navio em meio a uma tempestade. Esse contraste gera em minha mente algumas questões: Com que facilidade as pessoas conseguem se desligar de um mundo e se ligarem a outro? Será que elas percebem, quando ouvem a Palavra de Deus e o adoram, que através disso estão finalmente em contato com a realidade última? Ou será que elas, como eu temo, se movem de uma situação irreal para outra, como sonâmbulos em sonho, já que a televisão os introduziu a um mundo de fantasia do qual elas nunca conseguem escapar completamente?

  1. A televisão pode estar te tornando moralmente desorientado.

Com isso não quero dizer que telespectadores automaticamente imitam o comportamento sexual ou violento que assistem na TV. A desorientação moral que me refiro é mais sutil e insidiosa, não necessariamente instigação direta. O que acontece com todos nós, a menos que nosso poder de julgamento moral esteja sempre afinado e alerta, é que o nosso entendimento do que é “normal” começa a ser modificado. Sob a impressão de que “todo mundo faz isso”, e que ninguém hoje em dia acredita muito mais em Deus ou em absolutos, nossas defesas são reduzidas e imperceptivelmente os nossos valores alterados. Nós começamos a achar que violência física, promiscuidade sexual e consumismo extravagante são as normas aceitáveis da nossa sociedade, nessa época em que vivemos. Conseguiram nos enganar.

Conclusão

Então, preguiça física, apatia intelectual, exaustão emocional, confusão psicológica e desorientação moral: tudo isso é potencializado através de contínua exposição à televisão.

John Stott ainda oferece sugestões de como podemos lidar com esse problema, sem sermos essecivamente reacionários. Mas essa segunda parte vai ter que ficar para um outro dia.

A coisa mais importante que você pode fazer essa semana

church insideCremos, juntamente com o Breve Catecismo, que o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Cremos que a forma mais sublime de glorificá-lo em vida é adorando-o como igreja no dia do Senhor. A adoração corporativa do povo de Deus é o evento mais importante do qual podemos fazer parte.

É lógico que existem outras formas de glorificar a Deus. O glorificamos quando mantemos comunhão com Ele em casa individualmente e como família, quando estudamos ou trabalhamos honestamente, quando fazemos as tarefas domésticas com alegria, quando educamos nossos filhos piedosamente, quando comemos e bebemos com gratidão, quando nos divertimos positivamente, quando compartilhamos nossa fé em amor, etc. Tudo vem do Senhor, e tudo é dele! Então tudo pode ser bom, e em tudo podemos exaltar o Seu nome.

Ainda assim Deus separou um dia, o abençoou e o santificou. O dia do Senhor é um dia separado dos outros, um dia à parte. Nos outros dias caminhamos com Deus e o servimos também, mas o domingo é especial. Como povo de Deus somos convocados à Sua presença semanalmente, para renovarmos nossa Aliança com Ele e Ele conosco. Fazemos isso em humildade e amor, preservando a unidade do Espírito e nos esforçando para que alcancemos unidade de fé.

O culto público é o ponto alto da semana, ou melhor, o culto público é o ponto alto de toda a nossa vida. Talvez você ache isso um exagero, mas pense comigo. Qual é o fim principal do homem? E qual é a missão da igreja? Você já parou para pensar que a evangelização do mundo não é um fim em si mesma? Nem mesmo a salvação das almas. Nem o descanso, o trabalho, ou até mesmo a família e os amigos. O propósito central de Deus é formar um único povo que o adore, ou seja, que o glorifique e se alegre nele para sempre. O fim principal do homem é a adoração. Em adoração cumprimos o propósito para o qual fomos criados. Em adoração encontramos alegria duradoura. A evangelização e a salvação das almas é um meio, um meio importante, para que o propósito maior da adoração a Deus seja alcançado. As demais coisas (descanso, trabalho, família, amigos, etc) podem ser bênção se dermos a elas o valor que merecem. Deus vem em primeiro lugar. Quando invertemos as coisas o que poderia ser bom pode se tornar a razão da nossa ruína.

Participar da adoração do povo de Deus é ter um gostinho da eternidade. É quando temos o privilégio de praticar hoje o que iremos praticar para sempre. Se você não tem um coração para o culto a Deus, o que te faz pensar que de fato almeja a eternidade com Ele? A reunião do povo de Deus no domingo é uma antecipação do que viveremos na eternidade. Almejar aquilo significa ter prazer nisto.

Quando falamos da centralidade da adoração é isso que queremos dizer. O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Em vida o que mais se aproxima disso é a adoração corporativa do povo de Deus no dia do Senhor.